Segundo relatório do Monitoramento das eleições de 2026 identifica mudanças no engajamento político nas redes sociais
São Paulo, outubro de 2026
O segundo relatório do Monitoramento das eleições de 2026, realizado pelo Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM), da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em parceria com pesquisadores e grupos de pesquisa, identifica mudanças no comportamento das interações políticas nas redes sociais ao longo do período eleitoral. O levantamento destaca a concentração do engajamento em determinados perfis, a importância dos formatos de publicação e a presença da polarização política entre os conteúdos de maior repercussão.
A pesquisa analisou dados de Instagram, Facebook e TikTok entre 17 de setembro e 14 de outubro de 2026, dando continuidade ao monitoramento iniciado no primeiro turno. O estudo acompanhou diferentes grupos de atores políticos e midiáticos, incluindo veículos de comunicação, jornalistas, agências de checagem de fatos, candidatos oriundos da mídia, candidatos jovens, candidatas autodeclaradas pretas, pardas e indígenas, candidatos professores e atores ligados às chamadas pautas antigênero.
Entre os principais resultados, o relatório registra o crescimento das interações nos conteúdos de veículos jornalísticos, a mudança na liderança do engajamento entre candidatos oriundos da mídia e o destaque de publicações que abordaram diretamente a disputa presidencial. Os dados também mostram que a frequência de publicação e o tamanho da audiência não garantem, isoladamente, taxas elevadas de interação.
O levantamento integra uma série de acompanhamento das eleições de 2026. Os dados foram coletados por meio da plataforma Fanpage Karma, considerando métricas de publicações, seguidores e interações. Os resultados estão condicionados às informações disponibilizadas pelas plataformas digitais. As interações registradas não representam diretamente o alcance, as visualizações ou o número de usuários efetivamente expostos aos conteúdos, e as diferenças entre plataformas limitam comparações diretas.
Principais achados
- Candidaturas eleitas e temas dos nomes de urna: A comparação entre as candidaturas legislativas com referências temáticas nos nomes de urna identificou diferenças nas taxas de sucesso eleitoral. Considerando os cinco agrupamentos analisados, a proporção de candidaturas eleitas foi de 10,7% para Segurança, 6,7% para Saúde, 2,4% para Religião, 1,8% para Justiça e 1,7% para Educação.
- Na comparação entre 2022 e 2026, as candidaturas eleitas associadas à Segurança tiveram aumento de oito mandatos. As relacionadas à Saúde e à Justiça perderam quatro mandatos cada, enquanto Educação e Religião registraram redução de seis cada.
- O relatório também aponta a concentração de candidaturas com referências à Segurança em partidos de direita.
- Mídias hegemônicas e nativas digitais: O monitoramento acompanhou 72 perfis jornalísticos de 25 veículos no Instagram, Facebook e TikTok. No período, foram contabilizadas aproximadamente 104 mil publicações e 594 milhões de interações, ante 423 milhões registrados no primeiro levantamento.
- O Instagram concentrou 72% das interações, com cerca de 426 milhões, embora representasse 24% das publicações. O TikTok reuniu 16% das interações, aproximadamente 97 milhões, enquanto o Facebook concentrou 64% das publicações e 12% das interações, cerca de 71 milhões.
- Apesar da menor participação nas interações totais, o Facebook continuou sendo a plataforma com maior proporção de comentários: 19% das interações, contra 8% no Instagram e 4% no TikTok.
- Entre os temas mais recorrentes nas 5 mil publicações de maior interação estavam Flávio Bolsonaro, Lula e assuntos relacionados ao PT e ao governo, além do STF, da Justiça e da Polícia Federal. O vídeo permaneceu como o formato de maior destaque: correspondeu a 61% das publicações analisadas nesse recorte e gerou 70% das interações. Os dez conteúdos com maior engajamento eram vídeos.
- Agências de checagem de fatos: A análise de sete agências parceiras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou diferenças expressivas entre o volume de publicações, o tamanho da audiência e a capacidade de mobilizar interações.
- No Instagram, a Agência Lupa registrou 543.143 seguidores e publicou 123 conteúdos, acumulando 658.878 interações e uma taxa de interação de 1%. Aos Fatos, com 454.360 seguidores e 25 publicações, registrou 1.312.341 interações e taxa de 13,4%.
- No TikTok, Aos Fatos também se destacou: cinco publicações somaram 237.486 interações, com taxa de interação de 65,4%. A Agência Lupa, por sua vez, registrou 29.552 interações e taxa de 0,43% em 27 publicações.
- Entre os conteúdos de maior taxa de interação, destacaram-se verificações sobre declarações de Flávio Bolsonaro relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco Master. O relatório também identificou checagens sobre discursos de Lula e conteúdos visuais potencialmente enganosos.
- Os resultados mostram que a checagem de fatos não se restringiu à verificação de afirmações isoladas: incluiu a comparação de declarações feitas em diferentes momentos, o acompanhamento de narrativas políticas e a análise de imagens e conteúdos que circulavam nas redes.
- Jornalistas: No segundo levantamento, Leonardo Sakamoto liderou o ranking de taxa de interação entre os jornalistas monitorados, com 10,3% no Instagram. Na sequência, apareceram Rodrigo Vianna, com 8,9%; Roseann Kennedy e Leandro Demori, ambos com 6,16%.
- O relatório observou que as taxas de interação dos jornalistas e comunicadores foram, de modo geral, superiores às do primeiro levantamento. Reinaldo Gottino, embora concentrasse a maior frequência de publicação e tivesse 7,7 milhões de seguidores, apresentou taxa de interação de 0,06%, evidenciando que o tamanho da audiência não determina, por si só, o nível de resposta do público.
- Entre as dez publicações com maiores taxas de interação, oito abordavam as eleições presidenciais, incluindo debates, pesquisas de opinião, custo de vida, desistências de candidaturas e questionamentos sobre a atuação do TSE. As outras duas tratavam do Banco Master e de uma crise no STF.
- O desempenho de algumas publicações esteve associado a comentários políticos e posicionamentos sobre a disputa eleitoral, enquanto conteúdos sobre acontecimentos cotidianos também apareceram entre os mais curtidos.
- Candidatos oriundos da mídia: O grupo de 44 perfis relacionados a 20 candidaturas somou 2.510 publicações e 14 milhões de interações no período. Segundo o relatório, as curtidas cresceram 37,5% em relação ao primeiro levantamento, enquanto o número de seguidores praticamente não se alterou.
- Rachel Sheherazade assumiu a liderança em volume de interações, com 2,83 milhões, equivalentes a 20,2% do total do grupo. O resultado esteve associado principalmente a publicações com opiniões sobre a política nacional. No levantamento anterior, Manoel Gomes ocupava a primeira posição; no segundo período, suas interações caíram 55%.
- As três candidaturas com mais interações — Rachel Sheherazade, Adrilles Jorge e José de Abreu — concentraram 42,1% do total do grupo. As cinco primeiras responderam por 59,2%.
- As publicações com pedidos diretos de voto tiveram desempenho inferior à média do período, enquanto conteúdos que mencionavam Lula e o PT registraram interação média 46,1% superior à média geral. As menções a Flávio Bolsonaro apresentaram interação média 106,3% superior.
- O Instagram concentrou 87,6% das interações do grupo e todos os dez conteúdos com maior volume de interações. O relatório também identificou diferenças entre interação e hostilidade nos comentários: os perfis com maior engajamento não foram necessariamente aqueles com maior proporção de comentários negativos. Nenhuma das candidaturas desse grupo foi eleita.
- Candidatos jovens: O levantamento identificou a permanência de Nikolas Ferreira (PL), Erika Hilton (PSOL), Guilherme Cortez (PSOL), Lucas Pavanato (PL) e André Fernandes (PL) entre os candidatos de maior destaque em interações. Todos foram eleitos.
- O relatório aponta uma concentração das interações em torno de candidaturas do PL e do PSOL, indicando a presença da polarização partidária no conjunto analisado.
- A publicação com maior engajamento foi de Guilherme Cortez, do PSOL, com um vídeo no Instagram que abordava a trajetória política de Flávio Bolsonaro e questionava sua evolução patrimonial e seu envolvimento com a prática de rachadinhas. O conteúdo alcançou taxa de interação de 133%.
- Entre os conteúdos de destaque, apareceram vídeos de confronto político, críticas a adversários, recursos de ironia e sátira, entrevistas com eleitores e estratégias visuais destinadas a reforçar a oposição entre campos políticos.
- O estudo também examinou questionamentos sobre o funcionamento de ferramentas da Meta durante a campanha. Segundo o relatório, a empresa atribuiu os episódios a falhas técnicas pontuais e negou favorecimento a candidaturas específicas.
- Candidatas autodeclaradas pretas, pardas e indígenas (PPI): Entre as 23 candidatas analisadas, quatro foram eleitas para a Câmara dos Deputados: Erika Hilton, Juliana Cardoso, Maria Rosas e Sônia Guajajara.
- O relatório destaca que o desempenho individual nas urnas não garante a eleição, pois o resultado também depende do quociente eleitoral e da distribuição de vagas entre partidos e federações. O caso de Babi Mendes (PL), que recebeu 58.518 votos, é apresentado como exemplo dessa diferença.
- Entre as publicações de maior interação, predominavam conteúdos relacionados à polarização entre direita e esquerda, sobretudo em torno da disputa presidencial. A presença de temas raciais como assunto central foi menos frequente no grupo de conteúdos mais interativos.
- A publicação de maior destaque no ranking analisado foi de Keli Talks (PDT), que não obteve votação suficiente para se eleger. Guida Calixto (PT), também não eleita, apareceu em posições de destaque com publicações que questionavam o candidato adversário à Presidência.
- Os resultados mostram que a repercussão digital e o resultado eleitoral não são equivalentes e que conteúdos de maior interação nem sempre pertencem às candidaturas eleitas.
- Candidatos professores: Entre as 12 candidaturas analisadas, apenas duas foram eleitas: Professora Bebel (PT), para a Assembleia Legislativa de São Paulo, e Professora Luciene Cavalcante (PSOL), para a Câmara dos Deputados.
- A análise de 2.301 publicações identificou conteúdos relacionados à educação, de forma central ou secundária, em 557 delas, equivalentes a 24% do total. Entre essas publicações, 212 apresentavam pelo menos uma proposta concreta.
- Posicionamentos e opiniões representaram a função mais frequente das publicações, seguidos por pedidos de voto e autopromoção. As candidaturas com mandato deram maior destaque à prestação de contas, à agenda e à mobilização, enquanto aquelas sem mandato enfatizaram novas propostas.
- Entre os temas abordados estavam valorização e carreira docente, educação infantil, inclusão e educação especial, gestão e currículo, financiamento, infraestrutura, acesso e permanência escolar e violência nas escolas.
- O relatório aponta diferenças entre os campos políticos: as propostas sobre carreira docente identificadas na amostra vieram de candidaturas de esquerda e centro-esquerda, enquanto candidaturas de direita e centro-direita enfatizaram mais questões relacionadas à aprendizagem e aos conteúdos. Também observa que a identidade docente no nome de urna funcionou, em muitos casos, mais como credencial eleitoral do que como plataforma programática dedicada à educação.
- Atores associados a discursos antigênero: O monitoramento analisou 18 políticos e dez influenciadores. No período, foram contabilizadas 3.602 publicações de políticos e 879 de influenciadores. Entre os políticos do grupo que concorreram às eleições de 2026, todos foram eleitos.
- A análise combinou a seleção qualitativa de publicações relacionadas a pautas antigênero com o levantamento de palavras-chave presentes nas legendas. O relatório ressalta que parte das publicações coletadas não estava diretamente relacionada ao escopo temático e que a análise lexical considerou o conjunto de conteúdos de cada grupo.
- Entre as publicações de políticos que continham a palavra “mulher”, apareceram conteúdos sobre violência contra mulheres e meninas, críticas a declarações de Lula, defesa de penas mais severas para agressores e propostas de proteção a mulheres e crianças.
- Entre os influenciadores, os usos dos termos examinados foram mais variados, incluindo referências à religião, à fé, à família, críticas ao feminismo e mensagens direcionadas ao público feminino.
- O estudo ressalta que a ausência de palavras como “gênero” nas legendas não significa necessariamente a ausência de conteúdos relacionados ao tema, uma vez que essas questões podem ser abordadas sem o uso explícito do termo.
- Achado transversal: O segundo relatório evidencia que o engajamento político nas redes sociais varia de acordo com a plataforma, o formato das publicações, o tema abordado e as características dos perfis monitorados.
- O Instagram concentrou grande parte das interações em diferentes grupos, enquanto o Facebook se destacou pela proporção de comentários em determinados painéis.
- Vídeos, opiniões políticas e conteúdos relacionados à disputa presidencial apareceram com frequência entre as publicações de maior interação.
- A comparação entre os dois levantamentos também mostra que a liderança em engajamento pode mudar ao longo da campanha. O desempenho de um perfil em determinado período não garante a manutenção dessa posição no período seguinte.
- Os dados permitem identificar padrões de interação e estratégias de comunicação política, mas não demonstram, isoladamente, que essas interações tenham provocado mudanças na intenção de voto ou determinado os resultados eleitorais.
Sobre o OBCOM
O Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM) é um grupo de pesquisa da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), dedicado à investigação das relações entre comunicação, liberdade de expressão e censura.
O OBCOM é resultado de uma trajetória de pesquisas iniciada em 2001 e ligada ao resgate, em 1988, de mais de 6 mil documentos censórios do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, que deram origem ao Arquivo Miroel Silveira.
Desde 2021, o observatório ampliou suas frentes de pesquisa, incluindo estudos sobre liberdade de imprensa no Brasil, com ferramentas de pesquisa automatizada e visualização de dados, além de investigações sobre liberdade de expressão, artes, censura e suas manifestações contemporâneas.
Sobre o Monitoramento das Eleições 2026
O Monitoramento das eleições de 2026 é desenvolvido pelo OBCOM (ECA-USP), em parceria com pesquisadores do Projeto Temático Criminalidade, Insegurança e Legitimidade (CIL) e da frente Legitimidade, além do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) e do grupo Comunicação, Literacias e Consumo (CLIC), da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
A iniciativa acompanha a circulação de informações políticas e as formas de interação de diferentes atores nas plataformas digitais durante o período eleitoral, buscando compreender as dinâmicas de comunicação, engajamento e disputa política no ambiente digital.
Relatório: Monitoramento das eleições de 2026 — Relatório 2: de 17 de setembro a 14 de outubro de 2026
Coordenação: Daniela Osvald Ramos
DOI: 10.5281/zenodo.23484560.
Acesse o relatório: Monitoramento Eleições – 2026 – Relatório 2