Monitoramento das eleições de 2026 revela concentração do engajamento político nas redes sociais
São Paulo, setembro de 2026
O primeiro relatório do Monitoramento das eleições de 2026, realizado pelo Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM) e parceiros, identifica diferenças importantes na forma como conteúdos políticos circulam e mobilizam usuários nas redes sociais durante o período eleitoral.
O levantamento analisou dados de Instagram, Facebook e TikTok entre 16 de agosto e 16 de setembro de 2026, acompanhando diferentes grupos de atores políticos e midiáticos, incluindo veículos de comunicação, jornalistas, agências de checagem, candidatos midiáticos, candidatos jovens, candidatas autodeclaradas pretas, pardas e indígenas, candidatos professores e atores ligados às chamadas pautas antigênero.
O relatório é o primeiro de uma série de acompanhamento das eleições de 2026. Os dados foram coletados por meio da plataforma Fanpage Karma e estão condicionados às informações disponibilizadas pelas plataformas digitais. As métricas de interação não representam diretamente alcance, visualizações ou o número de usuários efetivamente expostos aos conteúdos, e diferenças entre plataformas podem limitar comparações diretas.
Principais achados
- Temas presentes nos nomes de urna: Entre os nomes de urna analisados, os cinco temas identificados foram Segurança, Educação, Saúde, Religião e Justiça. Segurança apareceu em 820 candidaturas, equivalentes a 4,2% do total analisado. Educação apareceu em 711 candidaturas, ou 3,6%. Saúde apareceu em 697 candidaturas, ou 3,5%.
- O uso de referências à Segurança esteve particularmente associado a candidaturas de PL e Republicanos; referências à Educação apareceram principalmente em candidaturas de PT e PSOL.
- Mídia tradicional e nativa digital: Os perfis nativos digitais apresentaram, em alguns casos, taxas de interação superiores às de veículos de maior audiência, mostrando que volume de seguidores e taxa de interação não são equivalentes. Entre os temas que mais apareceram nos 5 mil conteúdos mais interativos estavam STF, Lula, Alexandre de Moraes, André Mendonça e Vorcaro.
- Agências de checagem de fatos: Entre os conteúdos mais interativos, apareceram temas relacionados à desinformação política, às eleições e ao uso de inteligência artificial.
- O relatório identifica estratégias distintas: conteúdos de correção de informações falsas e conteúdos voltados à educação e prevenção, incluindo orientações sobre manipulações produzidas por IA.
- Jornalistas: Entre os perfis analisados, Malu Gaspar registrou 798.471 seguidores no Instagram; Leandro Demori, 384.437; e Leonardo Sakamoto, 336.966 no Instagram e 530.683 no Facebook. Alguns jornalistas com menor frequência de publicação apresentaram taxas de interação mais elevadas, como Malu Gaspar (7,6%), Leonardo Sakamoto (6,4%), Daniela Lima (6,1%), Octavio Guedes (5,4%) e Leandro Demori (4,7%).
- Conteúdos sobre a crise envolvendo o Banco Master e o STF tiveram presença relevante entre os conteúdos de maior interação.
- O relatório observa uma diferença entre formatos: determinados vídeos de jornalistas independentes apresentaram taxas de interação elevadas.
- Candidatos oriundos da mídia: Manoel Gomes respondeu por 21% das publicações, Adrilles Jorge por 17% e Datena por 10,5%; as três candidaturas concentraram quase metade das publicações do grupo.
- Perfis com grandes bases de seguidores nem sempre apresentaram os maiores volumes de interação. O relatório identifica, portanto, uma relação não linear entre tamanho da audiência, frequência de publicação e resposta observada nas plataformas.
- Jovens candidatos: PL correspondeu a 13 dos 24 nomes analisados, enquanto Missão e PSOL tiveram três cada. Entre os perfis com maiores bases de seguidores estavam Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Erika Hilton, João Campos, André Fernandes e Kim Kataguiri. O conteúdo de lançamento da candidatura de Nikolas Ferreira, publicado em 16 de agosto, esteve entre os conteúdos com maior volume de alcance/engajamento observado no grupo. Entre os dez conteúdos com maiores taxas de interação, oito estavam no Facebook e dois no TikTok.
- O relatório identifica forte presença de conteúdos ligados à disputa política e à polarização entre os conteúdos de maior interação, mas ressalta que os dados não permitem inferir, por si só, efeitos eleitorais ou influência sobre o voto.
- Mulheres negras, pardas e indígenas candidatas: O grupo publicou 2.691 conteúdos: 1.743 no Instagram, 756 no Facebook e 192 no TikTok. No Instagram, Erika Hilton concentrou 55% das interações; Babi Mendes, 23,1%; e Camila Cardoso, 9,6%. No Facebook, Babi Mendes concentrou 68,2% das interações; Keli Luz, 16,4%; e Camila Cardoso, 10,6%. No TikTok, Babi Mendes concentrou 47% e Erika Hilton 39,6%.
- Entre os conteúdos mais interativos, a polarização política apareceu como elemento recorrente.
- O relatório também identifica diferenças na presença de temas relacionados a gênero entre grupos posicionados em diferentes campos políticos.
- Candidatos professores: A análise qualitativa contemplou 12 candidatos professores: seis candidatos a deputado federal e seis a deputado estadual. A frequência de publicação não apresentou correspondência direta com o volume de interações. Luciene Cavalcante, por exemplo, registrou 153.491 interações apesar de não estar entre os perfis com maior frequência de publicação; Najara Costa registrou 64.331 e Flávio Martins, 50.911.
- Atores associados à categoria analítica “antigênero”: Foram analisados 18 políticos e 10 influenciadores, com 3.584 publicações de políticos e 1.516 de influenciadores. Entre os conteúdos políticos analisados qualitativamente, um vídeo de Lucas Pavanato no Instagram, publicado em 30 de agosto, apresentou taxa de interação de 16,91% e mais de 870 mil interações. Entre os influenciadores, um vídeo de Pablo Marçal no TikTok, publicado em 18 de agosto, apresentou taxa de interação de 11,64% e mais de 395 mil interações.
- Na busca por palavras-chave, “mulher” apareceu em 88 publicações de políticos, “família” em 57, “aborto” em nove e “gênero” em cinco. Entre influenciadores, a busca identificou quatro publicações contendo “feminilidade” e 12 contendo “mulheres”. Os resultados mostram a presença de temas relacionados a gênero, família, aborto e sexualidade na comunicação de parte dos atores selecionados.
- Achado transversal: O monitoramento revela um ambiente digital marcado por diferenças significativas entre plataformas, formatos e tipos de atores.
- Instagram e TikTok apresentam dinâmicas de interação distintas do Facebook, enquanto vídeos e conteúdos nativos digitais aparecem com frequência entre os conteúdos de maior interação.
- Temas relacionados à disputa política, instituições do sistema de Justiça, eleições, desinformação e polarização aparecem de maneira recorrente entre os conteúdos de maior interação.
Sobre o OBCOM
O Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (OBCOM) é um grupo de pesquisa da Escola de Comunicações e Artes (USP) dedicado à investigação das relações entre comunicação, liberdade de expressão e censura. O Obcom é resultado de uma longa trajetória de pesquisas sobre censura e liberdade de expressão cujo início remete ao ano 2001. Herdeiro do Arquivo Miroel Silveira (veja na seção Links deste site), esse histórico está ligado ao resgate, em 1988, de mais de 6 mil documentos censórios do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo.
Desde 2021 o Obcom abriu outras perspectivas, como as questões de liberdade de imprensa no Brasil, com a ferramenta de pesquisa automatizada por dados, bem como sua visualização, a partir da série histórica de relatórios da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ), disponível na home e na seção “Busca”. Também participa do projeto internacional financiado pelo Research Council of Norway em conjunto com a Oslo Metropolitan University, Universidade de Witwatersrand e o então Dart Center for Journalism and Trauma na Columbia Journalism School, “Questões de Segurança: Pesquisa e educação sobre a Segurança de Jornalistas em cooperação entre Noruega-Brasil-África do Sul e EUA”.
Além disso, continua a pesquisar e produzir textos acadêmicos sobre liberdade de expressão e a área das Artes, censura e também os novos tipos de censura na contemporaneidade.
Sobre o Monitoramento das Eleições 2026
O monitoramento das eleições de 2026 é desenvolvido pelo OBCOM (ECA-USP) em parceria com pesquisadores do Projeto Temático CIL e da frente “Legitimidade”, além de parcerias com o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) e o grupo Comunicação, Literacias e Consumo (CLIC), da ESPM.
Relatório: Monitoramento das eleições de 2026: relatório 1 — de 16 de agosto a 16 de setembro de 2026
Coordenação: Daniela Osvald Ramos
DOI: 10.5281/zenodo.23041867